Ergua os olhos, Hannah!

Na semana do Oscar e em tempos de revolução, um grande discurso de uma pessoa que sabia muito mais do que eu sei. Então faço das palavras dele, as minhas:

Esperança… Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar a todos se possível: os judeus, os gentios… os negros… os brancos. Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim.

Desejamos viver para a felicidade do próximo, não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A Terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. 

A cobiça envenenou a alma dos homens… Levantou no mundo as muralhas do ódio… E tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os massacres. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, duros e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será violênta e estará perdida.

            A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem… Um apelo à fraternidade universal, à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora… Milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas… Vítimas de um sistema que tortura seres humanos e prende inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça, da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo.

E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutos… que vos desprezam… que vos escravizam… que regulam as suas vidas… que ditam os seus atos, as suas idéias e os seus sentimentos! Que os fazem marchar no mesmo passo, que os submetem a uma alimentação regrada, que os tratam como gado humano e que os utilizam como bucha de canhão! Vocês não são máquinas! Vocês são homens! E com o amor da humanidade em suas almas! Não odeiem! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalhem pela escravidão! Lutam pela liberdade!

No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem. Não de um só homem ou grupo de homens, mas de todos os homens! Está em vocês! Vocês, o povo, tem o poder, o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vocês, o povo, tem o poder de tornar esta vida livre e bela. De fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto, em nome da democracia, usemos esse poder, nos unindo. Lutemos por um mundo novo. Um mundo bom que a todos assegure a vontade de trabalhar, que dê futuro aos jovens e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores libertam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à intolerância. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à nossa felicidade.

Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

Hannah, está me ouvindo? Onde você estiver, levanta os olhos! Vê, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo das trevas para a luz! Vamos entrando num mundo novo, um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergua os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergua os olhos, Hannah! Ergua os olhos!

De Charles Chaplin, em o Grande Ditador.

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