Por: George Erwin
No senso comum, para ser um bom jornalista, existe a idéia quase óbvia de que é preciso escrever bem. Ignoremos o fato de que isso seja apenas uma idéia que habita o senso comum; ignoremos o fato de que nem todo jornalista escreve tão bem assim e nos perguntemos: o que é escrever bem?
Sofremos hoje, principalmente no jornalismo diário, uma séria limitação criativa na confecção dos textos, talvez pela adaptação do estilo americano de jornalismo impresso que utilizamos, ou quem sabe, pelo tipo de texto que o grande público espera encontrar ao ler uma publicação qualquer. Na verdade, provavelmente pelos dois motivos. Uma boa matéria, geralmente está muito bem resumida num “lead” inicial, e se desdobra de maneira ágil, precisa e direta até a sua conclusão. Ainda assim, houveram, e ainda existem (embora hoje sejam poucos), os veículos que fogem ao modelo. A The New Yorker, que abrigou assinaturas de grandes escritores, como Truman Capote (A Sangue Frio, Bonequinha de Luxo), J.D. Salinger (O Apanhador no Campo de Centeio), John Hersey (Hiroshima), Vladimir Nabokov (Lolita) e Milan Kundera (A Insustentável Leveza do Ser), tem como seu maior mérito a paciência e liberdade para que pudessem ser produzidos textos de tanta qualidade.
A revista não exigia prazos pré-determinados para as matérias de seus jornalistas, e pode se dizer que qualquer um que não desejasse que seus textos se tornassem mera embalagem do peixe do dia seguinte, sonhava em escrever para eles. Joseph Mitchell foi, portanto, um dos talentos consagrados por suas páginas. Com um módico salário de US$ 20.000,00 anuais, ele não tinha problemas em ficar dois anos produzindo uma mesma matéria.
Conhecido por seus perfis cuidadosamente escritos sobre excêntricos e pessoas marginalizadas pela sociedade em torno de Nova Iorque, Mitchell nasceu na fazenda de seus avós maternos, próximo a Iona, Carolina do Norte. A família vendia algodão e tabaco, o que dava dinheiro o suficiente para ajudar em seu sustento. O Segredo de Joe Gould, publicado em 1964, marcou definitivamente o que foram as últimas décadas de sua vida. De 1964 até sua morte em 1996, Mitchell trabalhava em seu escritório, mas nunca mais chegou a publicar algo significativo.
Dizem que ter revelado o segredo na matéria de 64, fora incompatível com a sua ética e ele, por sua vez, acabou por punir-se com o silêncio. Uma outra explicação para este bloqueio, talvez seja sua declaração para o escritor do Washinton Post, David Streitfeld em agosto de 1992: “Você fica tão próximo de alguém
que de fato, você acaba escrevendo sobre si mesmo. Joe Gould teve que deixar sua casa, pois ele não se encaixava, do mesmo modo, eu tive que deixar minha casa pois não me encaixava. Falando com Joe Gould por todos estes anos, ele se tornou eu de alguma forma, se você entende o que quero dizer.” Joseph Mitchell morreu de câncer aos 87 anos.
Joe Gould chegou à Nova York em 1916 e viveu lá por mais 35 anos, até falecer em 1957 com 68 anos de idade. Era filho de médicos e chegou a estudar em Harvard, mas simplesmente não se adaptava a vida comum. Em determinado momento de sua história, sua família perde quase toda a sua fortuna e Gould arruma pequenos trabalhos para ganhar algum dinheiro. Certo dia tem a idéia de escrever a “História Oral” e imediatamente abandona tudo e passa a viver de favores dedicando-se exclusivamente a boemia e sua misteriosa obra.
“O Segredo de Joe Gould”, na verdade são as duas matérias escritas sobre este curioso personagem por Mitchell e publicadas na New Yorker. Ambas perfis, embora sob óticas diferentes, falam de um misterioso homem, conhecido na época em todas as lanchonetes baratas e antros do Greenwich Village, em Nova York.
A primeira, entitulada “O Professor Gaivota” e publicada em 1942, é uma análise mais superficial, feita principalmente sobre os depoimentos das pessoas que conviviam com ele e das longas conversas que Mitchell e Gould travavam pelos restaurantes baratos e parques da região.
O personagem se apresenta como um beberrão alegre e macilento, que adora conversar e chamar a atenção para si. Freqüentava muitas festas, dormia em abrigos ou na rua e vestia-se com roupas que lhe eram doadas. Andava sempre com um grande portifólio de papelão carregado de papeis com inúmeras anotações debaixo do braço.
Nas festas, quando não estava cantando e dançando, tirava paletó e sapatos, desabotoava a camisa e punha-se a grasnar como uma gaivota. Nos antros em que costumava esmolar a comida que engolia com vidros de ketchup, falava para quem lhe desse atenção sobre sua misteriosa obra, que segundo ele, revolucionaria a forma como as pessoas viam a história da humanidade, e assim, conseguia trocados para o que chamava de “Fundo Joe Gould”.
A “História Oral”, como era chamada a sua misteriosa obra, segundo ele, tratava-se de uma gigantesca (doze vezes o tamanho da Bíblia) compilação de ensaios e perfis de pessoas comuns, as quais ele atentamente ouvia as histórias. Esta, segundo ele, seria a verdadeira história da humanidade naquele século, e seria alvo de sérios estudos nos séculos posteriores.
Joe Gould de fato havia publicado alguns textos em revistas e jornais da época, a maioria, poesias e artigos sobre assuntos diversos, geralmente relacionados a este misterioso livro.
O segundo texto foi publicado apenas em 1964, e foi resultado de absoluta imersão do jornalista no cotidiano de Joe Gould. Mesmo depois da primeira publicação, Mitchell continuou a encontrar-se quase que diariamente com Gould, e começou uma busca interminável pela tal “História Oral”. Descobriu que o esquisito homenzinho fazia suas anotações em cadernos pautados, destes usados nas escolas, e os guardava com amigos espalhados por toda a cidade.
Gould afirmava que os cadernos eram muitos, que empilhados eram muito mais altos que seus 1,64 metros. Mesmo assim, mostrava sempre alguns poucos capítulos, todos ensaios sobre seus pais, índios e o consumo de tomates. O mais intrigante, é que mesmo que Mitchell encontrasse um novo caderno, com outro suposto amigo de Gould, este caderno tinha uma nova versão de um destes capítulos.
Com o tempo, Mitchell soube que Joe costumava guardar os cadernos com estes amigos até que atingisse um número de 5 ou 6, então, passava recolhendo e sumia com todos eles. Mas apenas para voltar meses depois com mais cadernos para serem guardados, e assim por diante. Segundo Joe, no entanto, estes cadernos que recolhia, estocava em uma propriedade fora da cidade, com uma amiga, para que estivessem protegidos da Guerra.
O mais estranho, é que sempre que ele ficava de pegar parte de sua obra para ser analisada (no caso, a parte que mais interessava para Mitchell, a parte “oral”), vinha com alguma nova desculpa e pedia mais dinheiro para uma nova tentativa de consegui-la.
Por fim, o segredo de Joe Gould acaba por ficar óbvio para o jornalista, que percebe que a “História Oral” na verdade não existe, ao menos fisicamente, pois o mesmo acredita que realmente Gould a tenha em sua cabeça, mas, por preguiça, ou quem sabe até por seu perfeccionismo compulsivo (reescrevia infinitas vezes o mesmo texto e nunca o achava realmente bom), nunca a escrevera, e na verdade não iria fazê-lo, mas suas histórias eram uma boa forma de arrumar dinheiro para seu humilde sustento.
Mas, longe de ser a revelação do segredo, o ponto alto do texto de Mitchell é sem dúvida a apuração precisa, fruto de uma imerção profunda e duradoura, a perfeita compreensão do enigmático personagem que ele nos apresenta. Joe Gould, excêntrico, culto e pobre, através das páginas de Mitchell, nos apresenta uma Nova York desconhecia. Uma ótica simplista da história do cotidiano.
